quarta-feira, 15 de maio de 2019

Aquele que gosta mais

O que mostram as estrelas é bem claro:
Naquilo que lhes toca, eu posso ir para o diabo;
Mas muito mais há a temer sobre a terra
Do que homem ou bicho mostrando que despreza.

Quem gostava de pôr uma estrela a arder
Com paixão a que não fosse corresponder?
Se os sentimentos não puderem ser iguais,
Quero ser eu aquele que gosta mais.

Julgando-me assim propenso a admirar
Estrelas que se estão a borrifar,
Agora que as vejo, admito que o dia
Passou sem eu sofrer tal nostalgia.

Se deixasse de haver estrelas no céu,
Eu aprenderia a olhar para esse breu
Como quem acha sublime haver nada
Mas não chegou aí de uma penada.


W. H. Auden

sábado, 4 de maio de 2019

em tempo de junquilhos(que entendem

em tempo de junquilhos(que entendem
que a meta de viver é crescer)
esquecendo porquê,lembra como

em tempo de lilases que bradam
que o fito de acordar é sonhar
lembra tal(esquecendo talvez)

em tempo de roseiras(que abismam
com céu o nosso agora e aqui)
esquecendo que há se,lembra sim

em tempo de incontáveis doçuras
que a mente julgará sempre obscuras
lembra busca(esquecendo elucida)

e ocorrendo um mistério por fim
(quando o tempo no tempo for motim)
esquecendo-me,lembra-te de mim


E. E. Cummings

quinta-feira, 25 de abril de 2019

algures onde nunca fui,alegremente além

algures onde nunca fui,alegremente além
da experiência,teus olhos têm seu silêncio:
em teu gesto mais frágil há coisas que me cercam,
ou tão próximas que não as posso tocar

teu mais ténue olhar facilmente me desfecha
ainda que eu me tenha fechado como dedos,
abres sempre pétala a pétala a mim como a Primavera abre
(tocando hábil,misteriosamente)sua primeira rosa

ou se teu desejo for fechar-me,eu e
minha vida encerraremos bela,bruscamente,
como quando o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente tudo cobrindo;

nada no mundo percetível se equipara
a teu poder fragílimo:cuja textura
me incita com o tom das suas terras,
dando a morte e para sempre a cada fôlego

(não sei que coisa tua é essa que fecha
e abre;apenas algo entende dentro de mim
que teus olhos falam mais fundo que as roseiras)
ninguém,nem a chuva,tem mãos pequenas assim


E. E. Cummings

sábado, 13 de abril de 2019

Nota Cinco

As traduções dos poemas do autor surrealista Benjamin Péret foram objeto da preciosa ajuda de Saguenail e Regina Guimarães.

Os odores do amor

Se um prazer acaso existe
será certamente o de fazer amor
tendo o corpo atado com cordas
e os olhos fechados por lâminas de barbear

Ela aproxima-se como uma lanterna
O seu olhar precede-a e prepara o terreno
As moscas expiram como um belo fim de tarde
Um banco vai à falência
desencadeando uma guerra de dentes e de unhas

As suas mãos perturbam a omeleta do céu
fulminam o voo desesperado das corujas
e fazem cair um deus do seu poleiro

Ela aproxima-se a bem amada com seios de limão
Perdem-se os seus pés pelos telhados
Que doido automóvel
sobe do fundo do seu peito
Gira aflora e mergulha
como um monstro marinho

É o instante que os vegetais escolheram
para sair da órbita do solo
Sobem como uma aclamação
Sente-los sente-los
agora que a frescura
dissolve os teus ossos e cabelos
E não sentes também que esta planta mágica
dá aos teus olhos um olhar de mão
sangrenta
radiosa
Sei que o sol
longínqua poeira
rebenta como um fruto maduro
se os teus rins rodarem e balançarem
na tempestade que desejas
Mas que interessa às nossas iniciais misturadas
o deslizamento subterrâneo das existências impercetíveis
é meio-dia


Benjamin Péret

O casamento das folhas

O homem descobre a poesia circular
Dá-se conta que ela roda e balança
como as ondas da botânica
e prepara ciclicamente o seu fluxo e o seu refluxo

Ó santos se ao menos fôsseis cingidos por seios sadios
A vossa assinatura seria uma mão de polegares
agitada por tremura alcoólica
Ó santos que tendes vós na mão
Será uma mão mais pequena
que encobre outra mão mais pequena
e assim sucessivamente até à consumação das mãos

A poeira agita-se na sua solidão
Pretende que o silêncio que a rodeia
se povoe de fantasmas alados
com vozes de troncos podres
de mulheres leves como a dama de branco
de velhos que desceram a montanha
atormentados pelas neves eternas
das grandes montanhas moles
onde giram rodopiam e se abismam
as sapatilhas de dança


Benjamin Péret

segunda-feira, 1 de abril de 2019

O ardor desesperado

Se o vento o permitir
o desespero devastará as terras sãs
vizinhas do arco-íris e do polo de seda
a terra onde as visões dos himenópteros se materializam
onde a esperança de uns anima o ardor sexual de outros
onde eu passo como uma dor cíclica
que estimula a energia dos insetos com carapaça de vidro

Ó suspiros insetos do porvir
aguardo-vos na sombra que conheceis
para vos confiar segredos que vos farão refletir
segredos tão fluidos que escorrerão por entre os vossos dedos
como os minutos por entre as coxas de uma bela mulher
e o sono dos insanos
ao sol
do meio-dia


Benjamin Péret