Beleza, cuidar belo, onde a minha alma incerta
Acha fluxo e refluxo à maneira do Mar,
Decidi-vos a dar alívio à dor que aperta,
Se não decido-me eu a deixar de penar.
Tem teu olhar engodos que muito amo e prezo,
Da minha liberdade é o grande senhor;
Mas para me reter, se quer que eu fique preso,
Não lhe basta a beleza, tem de dar amor.
Quando isso me parece mais do que provável,
Qualquer pretexto indica ser crença fugaz;
É da mulher de Ulisses a teia infindável
Cujo estado ao sol-pôr de manhã se desfaz.
Senhora, notai bem, perdeis da honra a glória
Ao, tendo-o prometido, vos rirdes de mim;
Se não vos recordais, falta-vos, pois, memória,
E se vos recordais, provais má-fé sem fim.
Convicto de que amar coisa tão elevada
À morte cinge a causa da separação,
Sei que, se assim não for, sereis vós a culpada
Por terdes feito jura sem consumação.
François de Malherbe