sexta-feira, 4 de junho de 2021

Correspondências

No templo Natural, não há vivo pilar
Que não deixe escapar certa fala confusa;
Os símbolos dos bosques que todo o homem cruza
Vão lançando sobre ele um olhar familiar.

Como ecos que de longe se fundem em somas
Compondo uma profunda e medonha unidade,
Tão vasta como a noite e como a claridade,
Correspondem-se as cores, os sons e os aromas.

Pode o aroma ser fresco como o da criança, 
Doce como um oboé, verde como a campina,
- Ou pode ser corrupto, rico, ter pujança

De coisa que se expande e que jamais declina,
Como o âmbar, o almíscar, o incenso, o benjoim,
Que cantam os sentidos e a alma em frenesim.


Charles Baudelaire

sexta-feira, 28 de maio de 2021

O albatroz

Muitas vezes, por gozo, os homens da equipagem
Prendem um albatroz, bicho marinho e largo
Que usa seguir, parceiro indolente de viagem,
O navio que voga pelo abismo amargo.

Mal o põem em cena no palco do chão,
Esse rei do Azul, inábil e acanhado,
Deixa cair as asas em lamentação,
Quais grandes remos brancos que arrasta ao seu lado.

O viajante dos ares perdeu a beleza!
Agora só faz rir, quem há pouco encantava!
Um mete-lhe no bico um cachimbo que o lesa,
Outro imita o defeito de um manco que voava!

Ao príncipe do céu, que do arqueiro se ria
E a tormenta assombrava, o Poeta é semelhante;
Exilado no solo, em plena zombaria,
Impedem-no de andar as asas de gigante.


Charles Baudelaire

domingo, 9 de maio de 2021

Bênção

Assim que, por decreto da força suprema,
Aparece o Poeta no mundo entediado,
Sua mãe assustada e por demais blasfema,
Contra o Deus que a lamenta ergue um punho cerrado:

– "Ah!, tivesse eu parido um ninho de serpentes,
Em vez de dar meu leite a toda esta irrisão!
Maldita seja a noite de amor's transientes 
Em que foi concebida a minha expiação!

Se entre as mulheres todas me foste buscar
P'ra trazer a aversão ao meu triste marido,
E se nem sequer posso nas chamas lançar,
Como carta de amor, o monstro diminuído,

O rancor que me impinges farei recair
No instrumento votado às Tuas maldições,
E essa árvore ruim tanto a hei de ferir
Que jamais crescerão seus fétidos botões!"

Engole então a baba que o rancor soltara,
E, não sabendo ler os desígnios eternos,
Na Geena profunda ela mesma prepara
As piras consagradas aos crimes maternos.

Mas o Miúdo enjeitado o próprio sol consome
Sob a guarda invisível do seu Querubim,
E em tudo o que bebe e em tudo o que come
Ele encontra a ambrosia e o néctar carmim.

Conversa com a nuvem, brinca com a aragem,
Embriaga-se, cantando, com a sacra via;
E o Espírito que o segue na sua romagem
Chora ao vê-lo, qual ave, cheio de alegria.

Os seres que ele estima julgam-no nojento,
E, colhendo coragem na sua bondade,
Tentam ver quem consegue arrancar-lhe um lamento
Para assim se adestrarem na ferocidade.

Em todo o vinho e pão que lhe hão de ir ter à boca
Vão misturando cinza com escarros vis;
Hipócritas, rejeitam tudo o que ele toca
E penam se o seu trilho com o del' condiz.

Nas praças da cidade a sua mulher brama:
"Já que ele mitifica a minha formosura,
Levarei o viver que um ídolo reclama,
Com direito ao retoque da antiga pintura;

E hei de me empanturrar de incenso, mirra, nardo,
E de genuflexões, de carnes, de licores,
Zombando enquanto roubo ao coração do bardo
O que é devido a Deus em forma de louvores!

E, quando de ímpias farsas me achar enjoada,
Minha mão fraca e forte sobre el' pousarei;
E com unhas de harpia hei de abrir uma estrada
Com que ao seu coração por certo chegarei.

Como um pássaro jovem que treme e palpita,
Esse órgão tirarei do vermelho carnal,
E, como quem sacia a besta favorita,
Vou atirar-lho ao chão com desprezo total!"

Para o Céu, onde avista o seu trono imponente,
O Poeta sereno ergue as mãos piedosas
E os profundos clarões de tão lúcida mente
Ocultam-lhe a aparência das turbas furiosas:

- "Bendito sejais, Deus, que entregais a dolência
Como cura divina p'ra os nossos desvios,
Como sendo a mais pura, a mais perfeita essência
Que prepara os robustos p'ra os júbilos pios!

Há de um dia o Poeta por certo ir subindo
Às filas venturosas das santas Legiões,
E haveis de o convidar para o festejo infindo
Dos Tronos, das Virtudes, das Dominações.

Sei bem quanto é preciso que a vida me doa
P'ra da terra e do inferno exceder o estatuto,
E que para entrançar tal mística coroa
A todo o mundo e tempo há que pedir tributo.

Mas as joias perdidas da Palmira antiga,
As pérolas do mar, os metais por saber,
Engastados por Vós, nada há que consiga
Compor um diadema tão claro a esplender;

Só pura luz será sua matéria-prima,
Vinda do santo lar dos primórdios radiosos,
Da qual olhos mortais, no fulgor que os anima,
Não são mais do que espelhos turvos e chorosos!"


Charles Baudelaire 

domingo, 3 de janeiro de 2021

Beijando em vietnamita

A minha avó dá beijos
como se houvesse bombas a rebentar no quintal
onde hortelã e jasmim entrelaçam odores
e os fazem passar pela janela da cozinha,
como se, algures, um corpo estivesse a ruir
e as chamas pudessem regressar
através do emaranhado da coxa de um miúdo,
como se, para transpores uma porta, o teu tronco
tivesse que dançar a dor que as balas fizeram ao sair.
Quando a minha avó dá beijos, nunca
a meiguice é estrepitosa, os lábios não apertam
com música ocidental, ela beija como se quisesse
inalar-te, o nariz comprimido contra a bochecha
para reaprender o teu cheiro
e perlar o teu suor como gotas de ouro
nos seus pulmões, como se, enquanto ela te segura,
também a morte, estivesse a agarrar-se ao teu pulso.
A minha avó dá beijos como se a história
nunca tivesse acabado, como se, algures,
um corpo ainda
estivesse a ruir.


Ocean Vuong

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Soneto 126

Ó tu, doce rapaz, que tens na mão
A foice, o incerto vidro que horas dão;
Que, ao contrário daqueles que te amam,
Minguando, tens encantos que mais chamam –
Se a Natura (que tudo, tudo arrasa)
Conforme avanças sempre te retrasa,
Isto faz com o fito de tentar
O lamentável Tempo arruinar.
Mas tem cuidado: se és seu preferido, 
Não serás capital sempre retido!
De prestar contas ela não se esquiva,
E assim, por quitação, de ti se priva.
     (                                                    )
     (                                                    )


William Shakespeare 

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Soneto 124

Paixão que nasça só da situação,
A Fortuna rejeita-a como filha,
Anda ao sabor do Tempo mau ou bom,
Erva entre ervas, ou flor com flor's colhida.
Meu amor fez-se longe do acidente;
Não o abate a servil melancolia, 
Nem o confunde a pompa sorridente,
Tudo coisas que estão na ordem do dia:
Contra a politiquice, essa herege
Que por um curto prazo tudo aluga,
Só a sageza o meu amor elege,
Haja sol, haja chuva, ele não muda.
     Que o confirme quem foi truão do tempo,
     Mau em vida, mas bom no passamento.


William Shakespeare 

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Soneto 121

Antes ser vil que vil considerado 
Quando não ser de ser se recrimina, 
E o justo gozo acaba, que é julgado 
Pelo que outro, e não eu, assim opina. 
Porque hav'ria o impuro de saudar
Meu sangue folião como um igual?
Ou meus fracos alguém mais fraco olhar,
Tomando, em seu ardor, meu bem por mal?
Não, eu sou o que sou, e quem me nota
Abusos é os seus que então calcula.
Não dou minha conduta como torta
P'ra atestar o impudor que outro postula
     Quando reduz assim a realidade:
     Todos os homens reinam na maldade.


William Shakespeare

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Soneto 120

É minha aliada a tua ofensa antiga,
Pois, não sendo os meus nervos de metal,
Por causa dessa dor então sentida
Curvo-me ante o que agora eu fiz de mal.
Se tu foste por mim tão ofendido 
Como eu por ti, do inferno foi teu dano,
E tudo o que em teu crime foi sofrido
Eu ignorei com ócio de tirano. 
Se essa treva tivesse o imo lembrado
Quão sofre um coração todo desfeito,
E, como tu a mim, logo afagado
Com o preciso bálsamo o teu peito!...
    Agora, a falta é troca que atenua;
    A tua a mim resgata, a minha a tua.


William Shakespeare 

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Soneto 116

Não serei eu a ver em sério enlace
Estorvo algum. Amor não era amor
Se, achando alteração, el' se alterasse,
Ou desertasse atrás do desertor.
Oh não!, ele é tão fixo quanto o marco
Que assiste inabalado à tempestade;
É a estrela traçando um rumo ao barco
Que lhe mede a altitude e mais não sabe.
Pode o Tempo ir ceifando a face ufana,
Nem assim faz do amor o seu truão;
O amor não muda à hora ou à semana,
O fim do mundo é a sua obstinação. 
     Se sobre isto a poesia se enganou,
     Nunca escrevi, ninguém jamais amou.


William Shakespeare