domingo, 18 de janeiro de 2026

Boa educação

Se me perguntam,
Eu digo sempre:
"Tudo bem, obrigado, felizmente."
Se me perguntam,
Respondo sempre,
"Tudo bem, obrigado, e consigo?"
Respondo sempre,
E sempre digo,
Se me perguntam
Com boa educação...
MAS ÀS VEZES

Gostava

Que não o fizessem.

A. A. Milne

domingo, 28 de dezembro de 2025

Temple de la Douleur

Pela roda já fui despedaçado,
Sofri do chumbo a sova, do aço o dente,
Fui por gancho com farpas lancinado,
Por peine forte et dure e lenha ardente,
Fui cegado, despido em cavalete,
Do açoite a rubra tísica sofri,
E o parafuso, o freio, e ainda o ferrete,
Bota, canque, kourbash, forca... Por ti.

Tais torturas bem menos são malignas
Que o horror de te pores a fitar-me
Com gelado desdém. Pois não te dignas
A rir, falar, nem mesmo a libertar-me –
Mas deste-me, uma vez, a mão cheirosa
Para uma sarabanda majestosa.

Harry Crosby

quarta-feira, 25 de junho de 2025

O que dorme no vale

É um furo de verdor onde canta um ribeiro
Que nas ervas pendura trapos delirando
Em prata; onde o sol, desde o monte altaneiro,
Reluz: é um valezinho em raios espumando.

Um jovem tropa, a boca aberta, sem chapéu,
Nuca imersa no fresco de azuis agriões,
Dorme; na relva está deitado, sob o céu,
Pálido em leito verde onde chovem clarões.

Com os pés nos gladíolos, dorme. Sorridente
Tal qual uma criança em sono, se doente:
Tem frio: a Natureza o embale em quente jeito!

Nenhum odor provoca no nariz reação;
O rapaz dorme ao sol, tem sobre o peito a mão
Calma, e dois furos rubros no flanco direito.

Arthur Rimbaud

sábado, 21 de junho de 2025

A meio da escada

A meio da descida da escada
Há um degrau
Onde me sento.
Só com este
E não outro
Degrau me
Contento.
Não estou lá em baixo,
Não estou lá em cima;
Então este é o degrau
Onde a marcha
Por norma
Termina.

A meio da subida da escada
Em cima não é
E em baixo também não.
Nem é quarto de criança,
Nem povoação.
E assim pensamentos malucos
Põem o juízo a girar:
"Não é realmente
Em lado nenhum!
Em vez disso
É noutro lugar!"

A. A. Milne

segunda-feira, 16 de junho de 2025

O gato e o sol

O gato abriu os olhos,
O sol neles entrou.
Fechou o gato os olhos,
O sol neles ficou.

Quando, na escuridão, 
Vejo o sol aos bocados,
É esta a explicação:
Há gatos acordados.

Maurice Carême

domingo, 15 de junho de 2025

Mulheres danadas (Delphine e Hippolyte)

À luz de lamparinas tão-só langorosas,
Sobre almofadas fundas e cheias de odor,
Hippolyte pensava em carícias fogosas
Que erguiam a cortina ao seu jovem candor.

Procurava, toldado o olhar pela tormenta,
Da sua ingenuidade o céu que se afastou,
Tal qual um viajante que a vista orienta
Para o horizonte azul que de manhã passou.

Lágrimas preguiçosas em olhos com sono,
Ar quebrado, estupor, uma volúpia lassa,
Braços vencidos, armas vãs ao abandono,
Tudo servia e ornava a sua débil graça.

Estendida a seus pés, calma, em grande alegria,
Delphine devorava-a com olhos ardentes,
Como o forte animal que uma presa vigia,
Depois de logo a ter marcado com os dentes.

Ajoelhada ante a frágil, tal beleza brava,
Soberba, ia aspirando com lascivo agrado
O vinho triunfal, e à outra se chegava
P'ra nela recolher o mais doce ‘obrigado’.

Procurava no olho da pálida presa
A mudez que é cantada nos cantos do gozo,
E ainda a gratidão de sublime grandeza
Que da pálpebra sai qual suspiro moroso.

– "Hippolyte, meu bem, qual é tua opinião?
Compreendes por fim que não se deve dar
As rosas do começo em sacra imolação
Àqueles vendavais que as fariam murchar?

Meus beijos são subtis como, à tarde, o carinho
Que os efémeros dão ao lago transparente,
E os desse que te quer sulcarão seu caminho
Como faz a carroça, o arado pungente;

Passarão sobre ti como juntas de bois
Ou pesados corcéis de cascos sem piedade...
Minha irmã, Hippolyte, volta o rosto, pois,
Minha alma e coração, tu, meu todo e metade,

Vira p'ra aqui o olhar – azul, brilho de céus!
Divo bálsamo, sempre que chegar a mim,
De prazer's mais obscuros tirarei os véus
E um sono te darei onde o sonho é sem fim!"

Mas Hippolyte, logo, erguendo a jovem testa:
– "Não tenho ingratidão nem remorso na ideia,
Só que há uma aflição, amor, que me molesta
Como a que sobrevém à mais terrível ceia.

Desabam sobre mim terrores sufocantes
E negros batalhões de fantasmas à toa,
Que me querem levar por vias inconstantes
Que o horizonte a sangrar cabalmente agrilhoa.

Teremos cometido estranho desarranjo?
Explica, se puder's, meu medo em frenesi:
Estremeço de horror quando dizes: ‘Meu anjo!’,
Contudo, a minha boca vai toda p'ra ti.

Tu, meu pensar, não olhes p'ra mim desse modo!
Tu que eu prezo sem prazo, ó irmã de eleição,
Ainda que só fosses estendido engodo
E assim desses início à minha perdição!"

Como quem bate os pés na trípode de ferro,
Movendo a crina trágica, a vista funesta,
Delphine reagiu com despótico berro:
– "Quem, audaz, ante o amor com o inferno contesta?

P'ra sempre amaldiçoo o inútil fantasista
Que uma vez se lembrou, refém de estupidez
Sem ter fecundidade ou solução à vista,
De nas coisas do amor misturar a honradez!

Aquel' que quer unir num acorde sagrado
A noite com o dia, a sombra com calor,
Jamais aquecerá o seu corpo entrevado
Nesse sol escarlate que se chama amor!

Vai, se queres, buscar um estúpido esposo;
Teu peito virgem dá ao beijar que é morder;
E, cheia de um remorso lívido, horroroso,
Teus seios com estigmas me hás de devolver...

Só se pode a um senhor neste mundo servir!"
Mas a criança, de súbito em confissão,
Gritou sofrendo: – "Sinto em meu ser se expandir
O mais aberto abismo; o abismo é o coração!

Vazio desmedido, vulcão inflamável!
Nada satisfará este monstro a chorar
Nem a sede da Euménide que, insaciável,
Com archote na mão, o queima até sangrar.

Que as cortinas corridas nos livrem do mundo,
E seja a nossa paz da lassidão o efeito!
Eu quero aniquilar-me em teu colo profundo
E a frescura do túmulo achar em teu peito!"

– Descei, descei por dor que em força vos vitime,
Descei pelo caminho de um inferno infindo!
Mergulhai no mais fundo do abismo, onde o crime,
Flagelado por vento do céu não provindo,

Ferve no caos sonoro de uma tempestade.
Sombras loucas, correi p'ra toda a tentação;
Jamais satisfareis essa ferocidade,
E nascerá do gozo a vossa punição.

Nenhum raio há de dar luz fresca a tais cavernas;
Por fendas nas paredes, miasmas febris
Penetram inflamando-se como lanternas
E invadem vossos corpos com perfumes vis.

A rispidez estéril da vossa luxúria
Retesa vossa pel', vossa sede desgasta,
E o desejo que em vós é ventania em fúria
Faz estalar a carne qual bandeira gasta.

Longe de gente viva, errantes, condenadas,
Como lobos correi através do deserto;
Fazei vosso destino, almas desordenadas,
E fugi do infinito que em vós foi inserto!

Charles Baudelaire 

sexta-feira, 18 de outubro de 2024

Para um stor de purtuguês

Ao Senhor Pardo, stor de purtuguês,
Meu filho tá a faltar hoje outra vez.
Tem sarampos, e aquele narigão
Se ele o assoa parece um carrilhom.

Como se não bastasse o que sofreu
Há noite uma outra perna lhe cresceu.
A tosse é forte e não se vai embora
E o cucoruto sai-lhe de hora em hora.

Desculpe o miúdo tar hoje a faltar.
Com certeza esta alhada áde passar
Quando o stor lhe disser que já acabou
A bodega que o tal Camões rimou.

Doug MacLeod

sábado, 12 de outubro de 2024

A ladainha de Satanás

Tu, que entre Anjos ressais, mais belo e ilustrado,
Deus que a sorte traiu, de louvores privado,

Tem piedade, ó Satã, da minha longa lástima!

Ó Príncipe do exílio, a quem deram traição,
E que, vencido, sempre te reergues mais são,

Tem piedade, ó Satã, da minha longa lástima!

Sapiente, ó grande rei das coisas escondidas,
Familiar curandeiro de humanas feridas,

Tem piedade, ó Satã, da minha longa lástima!

Tu que, mesmo ao leproso, ao maldito deposto,
Ensinas pelo amor a encontrar no Éden gosto,

Tem piedade, ó Satã, da minha longa lástima!

Tu que, da imensa Morte, tua velha amante,
Engendraste a Esperança – louca fascinante!

Tem piedade, ó Satã, da minha longa lástima!

Tu que ao proscrito dás o olhar calmo, altaneiro,
Que junto ao cadafalso dana um povo inteiro,

Tem piedade, ó Satã, da minha longa lástima!

Tu que conheces onde, em terras invejosas,
Deus ciumento escondeu as pedras preciosas,

Tem piedade, ó Satã, da minha longa lástima!

Tu que vês com clareza os fundos arsenais
Onde dorme sepulto o povo dos metais,

Tem piedade, ó Satã, da minha longa lástima!

Tu cuja larga mão esconde os precipícios
Ao sonâmbulo errante em bordas de edifícios,

Tem piedade, ó Satã, da minha longa lástima!

Tu que tornas mais mol' (magia!) a velha espinha
Do ébrio que se atrasou e um cavalo espezinha,

Tem piedade, ó Satã, da minha longa lástima!

Tu que, p'ra consolar o homem frágil que sofre,
Lhe ensinaste a juntar salitre com enxofre,

Tem piedade, ó Satã, da minha longa lástima!

Tu que pões teu ferrete, ó cúmplice subtil,
Sobre a testa do Creso implacável e vil,

Tem piedade, ó Satã, da minha longa lástima!

Tu que em olhos e peitos de damas propagas
O amor pelos andrajos e o culto das chagas,

Tem piedade, ó Satã, da minha longa lástima!

Bastão dos exilados, luz dos inventores,
Confessor de enforcados e conspiradores,

Tem piedade, ó Satã, da minha longa lástima!

Pai adotivo desses que em irado breu
Do terreal paraíso Deus seu Pai correu,

Tem piedade, ó Satã, da minha longa lástima!


Oração

Glória e louvor a ti, Satanás, nas alturas
Do Céu, onde reinaste, e também nas funduras
Do Inferno, onde, vencido, sonhas tão calado!
Faz com que a minha alma repouse a teu lado,
Sob a Árvore da Ciência, quando se espalhar
A copa em tua fronte, como um novo Altar!

Charles Baudelaire

sexta-feira, 4 de outubro de 2024

Recolhimento

Porta-te bem, ó Dor, e mantém-te quieta.
Chegou o Anoitecer; pediste-o, foi-te dado:
Na cidade embrulhada em atmosfera preta,
Uns encontram a paz, outros o mau cuidado.

Enquanto dos mortais a multidão abjeta,
Sob o açoite do Gozo, esse algoz desalmado,
Para colher remorso à festa se submeta,
Prefere, ó Dor, a minha mão; vem p'ra este lado,

Longe deles. E vê, à varanda no céu,
Vestido como um velho, o Tempo que morreu;
O Pesar que das águas sobe sorridente;

O moribundo Sol que sob arco descansa,
E, qual longa mortalha arrastando-se a Oriente,
Ouve, amor, ouve a Noite tão doce que avança. 

Charles Baudelaire

domingo, 22 de setembro de 2024

O abismo

Com o abismo Pascal se punha em movimento.
– Tudo é abismo, ai! – agir, querer, sonhar,
Dizer! se pelo algum começa a se eriçar,
Sei que é do próprio Medo que provém o vento.

No alto, em baixo, ao redor, o fundo, a beira-mar,
O silêncio, o espaço encantador, cruento...
No imo das minhas noites, Deus com seu talento
Recria o pesadelo sem nunca o parar.

Temo o sono conforme se teme um buraco,
Enorme em vago horror, e com destino opaco;
Pelas janelas todas só vejo infinito,

E a mente, p'la vertigem sem fim assombrada,
A insensibilidade cobiça do nada.
– Oh! aos Seres e Números ficar restrito!

Charles Baudelaire